O Bisturi

Jornal O Bisturi

A tradicional Revista de Medicina, publicação estudantil da Faculdade de Medicina (FM) da Universidade de São Paulo (USP), trouxe no corpo de suas matérias, uma notícia sobre o surgimento de um novo jornal com o nome O Bisturi, “tipo perfeito do jornal de estudantes: resolve todos os problemas, mesmo os mais graves, comenta todos os fatos e, quando estes são muito sérios, trazem ao fim uma piada. É um resumo simpático do que se faz, se diz e se pensa fora das aulas. [1]

Lançado em 15 de março de 1930, O Bisturi propunha em suas primeiras linhas ser: “o companheiro de todas as turmas: é calouro e doutorando; é esforçado e vadio, alegre e pensativo; é desportista e poeta. Seu nome define: ‘O bisturi’ (de estudantes). Nunca chega a criar ferrugem, mal manejado, não corta; em mãos despertas, não fere. O jornal é indispensável. Este número de hoje é a primeira fornada, talvez um pouco crua, que sai como amostra só para se tomar o gosto das demais que se seguem, separadas pelo menor tempo possível, sem data pré-estabelecida.”[2]

A identidade jornalística se compunha da vida estudantil frente às mudanças vividas pelos alunos e pela cidade de São Paulo, conferindo “expressões próprias” de um “grupo diferenciado”. Vindos dos mais variados pontos do estado e do país, esses estudantes traziam na bagagem ideias e princípios diversos, acabando por desenvolver “tipos excepcionais de comportamento”[3], a que se deve acrescentar o fato de constituírem uma corporação em formação, tratando de tipologias e expressões muitas vezes só identificáveis entre os pares. Nesse sentido, o Jornal se dizia representante de toda a classe estudantil médica e era aberto à colaboração de todos que quisessem participar: “não queremos fazer de nossa folha simplesmente arquivo de pensamento estudantino, mas o condensador de ideias novas e de todas as aspirações de nossa classe. Avante!”[4]

Irônico e cheio de bom humor, O Bisturi conseguiu desenhar o cotidiano da Faculdade de Medicina (FM) narrando viagens e aulas, caricaturando alunos, professores e funcionários e usando de suas páginas para reivindicar melhorias no ensino, na pesquisa e na assistência médica. Sobretudo, o Jornal foi capaz de representar os anseios da elite médica e científica paulista, bem como sua vida na cidade de São Paulo, através da variedade de suas propostas jocosas, matizadas por um sarcasmo médico-estudantil.

A sobrevivência, até os dias atuais, de um jornal estudantil como O Bisturi estará em forte relação com os desígnios tomados pela escola médica durante as próximas décadas. Se pudemos acompanhar essa primeira fase, relativa a própria organização da Faculdade, inclusive, de sua incorporação à Universidade de São Paulo é importante ressaltar um momento de inflexão e politização dos discursos no jornal advindos dos próximos anos com os ecos da ditadura militar, a partir de 1964, colocando o próprio Centro Acadêmico em suspenso. Essa guinada politizadora do jornal passou a demonstrar, desde então, uma preocupação estudantil mais particular com a organização corporativa médica e, principalmente, com o ensino ministrado na FM. Já os espaços para as brincadeiras, poesias e as piadas, que tomavam conta de quase todo o jornal em suas primeiras tomadas foram limitados, reiterando um campo menos jocoso, mesmo que seu nome O Bisturi continue a eternizar os risos entre seus pares e de outros leitores também.

 


[1]             Editorial. Chronica. Revista de Medicina, São Paulo, anno XIV, n.52,1930, p.1.

[2]             Editorial. O bisturi (periódico literário, humorístico e noticioso), São Paulo, n.1, ano 1, 15 mar. 1930, p.1.

[3]             CAMILO, Vagner. Risos entre pares: poesia e amor românticos. São Paulo: Edusp/Fapesp, 1998, p.37.

[4]             O bisturi (periódico literário, humorístico e noticioso), São Paulo, n.1, ano 1, op.cit., p.1.

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